quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Era uma vez (Prosa)





Era uma vez...


Lembra-se daqueles dias felizes de quando éramos crianças e brincávamos de todas as brincadeiras que todas as crianças brincavam?
Eu era a professora, ou era a mãe das bonecas. Nossa, quantos filhos eu tinha. E você era madrinha ou era a aluna, mas queria ser a professora e a gente discutia e a querela terminava no par ou ímpar.... Lembra?
O tempo era nosso e quando o dia acabava, sabíamos, com certeza, que iríamos brincar novamente.
Lembra daquelas noites em que nossos pais iam ao cinema? Nós ficávamos aos cuidados da tia Helena e quase varávamos a noite naqueles concursos de misses (que você sempre ganhava)... A gente não tinha medo do escuro, só de fantasmas. Era por isso que eu cobria meus pés religiosamente. Assim nenhuma alma vinha puxá-los... A gente era riso e energia. No polícia e ladrão ninguém me pegava, só que não, pois o chato do Gilmar conseguia me pegar.
Você era muito bonita e ficava desfilando e nos provocando, insultando-nos com sua beleza e seus olhos azuis. E eu ficava pensando que queria ter olhos azuis.... Hoje tudo isso me provoca um sorriso e um aperto no peito de uma saudade doída, porque nunca mais vou brincar de miss, nunca mais vou querer ter olhos azuis, nunca mais vou correr atrás das borboletas e nem vou brincar com as fadas e os duendes no jardim. Nunca mais a inocência
vai transparecer em nossos rostos... Ah, se eu pudesse, eu agarrava o tempo e o torcia de ponta cabeça e voltava a brincar no jardim das fadas... 
Um dia, não sei se por remorso ou talvez por necessidade de falar, alguém me disse que você mais o Beto, que eu pensava ser meu príncipe encantado,  haviam quebrado aquele pacto de total lealdade que tínhamos feito e que nos colocava no mais alto grau de amizade... Foi numa tarde em que vocês foram sozinhos brincar no porão. Eu não sabia, eu amava tanto vocês, que jamais poderia supor que fossem desleais. Tentei, então, mandar em envelope lacrado todo o acontecimento para o fundo da mais escondida gaveta da minha mente. Pensava que, assim, estaria remendando a nossa união.Tentei colar os cacos, mas eles ficaram tão grotescos,como uma  jarra de cristal que cai ao chão e se quebra, ficando feia e remendada, mas tão feia que a única coisa a fazer era jogá-la fora. E, nesse dia em que percebi que os cacos ainda estavam na gaveta, não tive escolha: era matar ou morrer... Hoje, sinto que o fato não importava tanto quanto sua lealdade.A lealdade que vocês romperam, ferindo-me tão profundamente que, como o cristal,nossa amizade-amor-pacto quebrou-se irremediavelmente e eu a enterrei... E no caixão ficaram os cacos de uma perfídia.



Jane Moreira

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