terça-feira, 19 de agosto de 2014

Quem sou eu?

Mote

Modesto sentia
que sua pessoa
era metade espelho:
Elizabeth Bishop




Quem sou eu?

Quem sou eu que me vejo refletida
E não sei o que vejo do outro lado?
Serei metade ou inteira adormecida,
Que não entendo, ou entendo errado?

Serei eu mesma, aquela que não compreendo?
Será o reflexo o real mentor de minha entidade?
E, até que alguma luz em mim se acenda,
Como ser eu mesma, se uma outra se diz verdade?

E, no piscar do tempo, na corrida das horas,
Vou seguir, sem o refúgio do espelho abrigo,
Com ou sem o desejado clarão, a luz reveladora.

E, me fazendo só uma, criatura e seu reflexo,
Face que vejo e que do outro lado me intriga,
Sigo fingindo, sendo eu mesma, um ser sem nexo.

Jane Moreira



Amor-Perfeito

Mote:
Bradou o velho eremita:
"Amor tem que ser posto em prática!"
Ao longe, um eco esboçou
sua adesão, não muito enfática.
Elizabeth Bishop
 

Amor-perfeito

Amor é sorriso
Sincero, leal
E preciso...

Amor é desejo,
Sem pejo,
Com siso...

Amor é preciso,
É vida
E é riso

Amor é inteiro
Com eco
E sem letreiro...

Jane Moreira




Os poemas

Mote:
Os poemas
Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

Mario Quintana




Os poemas

Os poemas chegam feito passarinhos
E na mente do poeta fazem seus ninhos.
É quando ele se faz cego e mudo ao seu redor.

Os versos se inquietam, pedindo passagem,
Pelas mãos do poeta deixam sua mensagem
E se vão, alçando seu primeiro voo.


E partem para outras mãos, para o mundo...

E deixam, na alma do poeta, a recompensa.

Jane Moreira








Alma Torta

Mote:
Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões
Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães



Amo o vento que ruge como um felino feroz
E o horror da noite escura mais atroz.
Fascina-me a chuva, a tormenta, a tempestade.

Dói-me o peito, sinto a agonia da ansiedade
Se, ao acordar, se me depara o brilho do sol:
Minh’alma se revolta ante tanta claridade.

Todo o meu ser vibra ante a procela.

E, nos becos mais escuros, meu eu se revela.

Jane Moreira






Naufrágio

Mote: 
O pior naufrágio é não partir. (Amyr Klink)




Naufrágio

Ao desistir de lutar,
Naufragou...
No mar da vida,
Fracassou...
Morreu na praia,
Se entregou,
Não fez, não foi,
Não se doou...
Arrepende-se,
De todos as chances
Que desdenhou,
Do que devia
Ter feito, ter dito...
E agora,
Só resta o remorso,
Por falta de garra,
Não encarou a luta,
Fugiu à disputa.
Espectador da vida,
Náufrago perdido...
Não foi atrevido,
Não soube navegar...



Jane Moreira