domingo, 21 de outubro de 2012

De ver e perceber








De ver e perceber

Eu via
sorrisos nos lábios
e não percebia
a tristeza no seu coração.
Eu via
o amor transitar pelos salões,
mas não percebia
a decepção por traz do seu sorriso.
Eu via
taças, brindes, a grande comemoração
e não sabia
que os tragos anestesiavam seu coração.
que o sorriso entorpecia sua dor,
e que a música abafava seu clamor. 

Jane Moreira






Eu, paradoxo




Eu, paradoxo

Sou a sua bênção
E a sua perdição.
Sou a chave do seu coração
E também sua negação.

Eu sou o vento gelado,
Cortante, em pleno abril.
Sou a porta fechada
Para aquele que saiu.

Sou a beleza ceifada,
Sou a mulher tentação.
Sou a mãe devotada
E a outra direção...

Sou a sua encruzilhada,
Posso ser o sim ou o não.
Sou a ave da madrugada,
Sou o pássaro da escuridão.

Sou o toque da mão carinhosa
E o tapa que vem depois.
Sou o espinho da rosa...
Sou a síntese de nós dois.

Sou eu mesma em sua cama
E não sou eu quando quero.
Sou quem revela e engana,
Mas sou metade quando te espero.

E se engano também revelo
Minhas faces ou meu espanto...
Quando falo, me atropelo,
Quando calo, eu me agiganto.

Sou o mar em tempestade,
Sou a calma da praia ao luar.
Sou a própria suavidade
Quando quero te amar.

Sou mulher, forte e guerreira,
Sou menina, sou criança.
Posso até ser uma rameira,
Basta querer, dá-se a mudança.

Só não sou a face verdadeira,
Enquanto sou criatura.
Nunca me mostro inteira,
Não sou vadia, não sou pura...

Jane Moreira





Música dos Ventos (Glosa de trovas)


Ouço a música dos ventos,
Sentindo a dor que me assume.
Levem embora lamentos,
Deixem um pouco de lume.


Música dos Ventos


Ouço a música dos ventos.
Sinto, da chuva, o perfume.
Carregando sentimentos
E meus gritos de queixume.

Invadindo meus momentos,
Sentindo a dor que me assume.
Não sei quais são seus intentos,
Mas deles não fico imune.

Levem daqui meus tormentos,
Antes, porém, que eu me aprume.
Levem embora lamentos,
Não deixem que eu me acostume.

Tragam, então, mais alentos,
Vento e chuva e seu negrume!
Nestes dias tão cinzentos,
Deixem um pouco de lume.



Jane Moreira