sexta-feira, 15 de junho de 2012

Vida de João, que é pra rimar com nação.





 Vida de João, 
que é para rimar com nação,
Com falta de pão, 
com falta de educação,
Com falta de feijão, 
com excesso de desatenção.
Canto a vida do João
Que acorda cedinho,
Pés no chão
E vai pelo caminho
Que todo dia
Faz sozinho,
Assoviando
A mesma melodia...
Carrega a enxada,
Na mão leva o bornal.
De terra é a estrada
Que vai dar no canavial.
Os pássaros cantam
Sua melodia matinal
E o João sorri satisfeito
De ser lavrador,
Tem orgulho no peito
E esquece a dor
Que sente "na junta"
Mas sempre pergunta
Por que é assim?
Por que moro num barraco
Com dez filhos e a mulher
E não tenho direito
De dormir sossegado,
Sabendo que meu filho adoentado
Pode ir ao médico, ser medicado...?
Por que não pude estudar?
Só sei meu nome assinar
E meu filho "vai indo" pelo mesmo caminho...
Pergunto pro Zé, meu irmão,
Pergunto pro patrão
E ninguém tem resposta pra me dar...
Por que só tenho que ir votar?
E por que dizem que é meu direito?
Nem me interessa votar...
Sempre ouvi dizer que não tem jeito
De toda essa miséria acabar...
É tanta pergunta
Que fica sem resposta,
E é tanta promessa
Que a gente até aposta
Qual vai ser o mais mentiroso...
É tudo tão duvidoso,
Que resolvi só assoviar, capinar,
Nunca mais perguntar...
E assim vai o filho do João,
O neto do João
E cada vez mais pobre
Fica essa nação...
Pobre de instrução,
Mas pra que o pobre tem que estudar?
Para reivindicar?
Para perguntar?
Para saber responder?
Morre tanto João por aí,
Mas o que é que tem?
Menos gente nas filas para se medicar...
O policial, que não tem o segundo grau,
Desconta no infeliz sua própria miséria...
Pobre nação, mais pobre que o João...
Parece pilhéria
Do nosso João
Que até acha graça
Quando não tem um tostão.


Jane Moreira











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