quinta-feira, 9 de junho de 2011

Por que você não ficou aqui? (Mote)






Por que?

Por onde você andou?
Que tristezas acalentou?

Que foi que lhe fez sofrer?
Você só queria viver...
Você voltou diferente,
Rugas no rosto, vazio na mente...

Não veio você inteiramente...
Vejo sua alma que chora,
Ficou um pedaço seu lá fora...

Aqui só vejo sua dor,
Mascarada em amargor
Diga-me, então, agora,

Por que você não ficou aqui?

Jane Moreira





Canção de outono




Canção de outono...

E chega o outono para você e para mim,
Percebo que é o prenúncio do fim...
É um aviso do que agora me confronta:
O inverno que logo desponta...

Folhas douradas, árvores nuas,
Rugas marcadas, minhas e tuas,
Que o outono já vai acentuar
E o inverno não irá atenuar...

Nossos cabelos cor de prata
Nem precisam mais do luar,
Para assistir às serenatas
Que há tempos vinhas cantar...

E o vento geme lá fora
E eu me lembro da velha canção...
E o que ouço do vento agora
Ainda me traz aquela emoção.

A primavera tem seu encanto:
Florescimento e fantasia...
E o outono traz o espanto
Do desflorescimento e da nostalgia.

Nesta viagem pelas estações,
Nossa vida foi só alegria,
Com as mesmas emoções,
Nossa própria melodia, em sintonia.


Jane Moreira,






Poema sem poesia


MOTE: [Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

Poema sem poesia



Roubou a cena,
fez seu verso
de modo diverso...

Expôs o lado apoético,
estético,  num poema hermético...

 Não entenderam,
mas todos se renderam,
porque era diferente,

Era carente de sentido
mas foi logo absorvido.

E o poeta atrevido,
foi aplaudido, ungido
e seguiu destemido,

no versejar sem sentido,
no sarcasmo embutido.

Jane Moreira




 



A chuva


A brisa corre ligeira
suavemente beija a areia,
Que se arrepia e se assanha
E muitas carícias ganha.
A brisa corre suave
E, como se fosse ave,
Voa por toda a redondeza,
Beijando aqui e ali...
Beija o homem em sua lida
E a mulher entretida...

Traça seu caminho no ar,
Beija a criança inocente,
Beija a face adolescente.
E o idoso, sorridente,
Sente na face seu roçar...
E a brisa se torna mais forte,
Correndo veloz rumo norte.
Crescendo, agora ela é vento,
Que corre através da montanha
E logo chega ao mar.

Beija as ondas graciosas,
E também as revoltosas.
Só querendo agradar,
faz a onda arrebentar
furiosa na areia...
E a lua cheia
está no alto a espiar...
E o vento beija a face dolorida,
Daquela alma ferida
E beija as folhas caídas.

Mas agora ele não é delicado
E venta tão afobado,
Que as arranca do chão...
E causa tal confusão,
Que faz árvores envergarem,
Pássaros abandonarem,
Assustados e ansiosos,
Seus ninhos caprichosos...
E toda a natureza
Clama por tempestade,

Que atende a seu chamado
E rasga as nuvens do céu...
A água cai sobre a terra,
Que, ansiosa a recebe.
As folhas se tornam mais verdes,
Logo passa a tempestade

E  o sol começa a brilhar.
O arco-íris desponta no céu,
os pássaros voltam contentes...
Na natureza, as sementes
começam a germinar...

Jane Moreira