sábado, 20 de outubro de 2012

Depoimento post mortem



Era madrugada, eu dormia...
Acordei sobressaltada!
Mais sentia do que sabia
- acho que foi o sexto sentido...
Alguma coisa estava errada:
Vinha da rua um ruído
De chuva caindo no chão...
Mas, talvez o pior tenha sido
O barulho do trovão.
Foi tão forte a trovoada,
Que pareceu que o mundo acordou.
Apavorada, senti, naquele instante,
O cheiro de terra molhada...
O medo foi ficando mais constante...
Susto misturado ao pavor...
O rio ao lado já transbordava...
E, de repente, aquela dor,
Que me fez sair do transe...
Por baixo do barraco,
A água já se juntava,
Formando um imenso lago.
Meu lar, meu abrigo,
Tão frágil era só estrago.
Estava à mercê da chuva, do vento...
E pelas frestas, nesse momento,
A água já entrava com força.
Juntei meu filho e uns trapos
E quis correr... Sobreviver...
O barraco parecia se desmanchar
Na água que invadia.
Senti que o teto
A qualquer momento desabaria
E quis correr...
Eu quis correr com meu filho nos braços,
Eu quis fugir!
E por ali ninguém passava para me ajudar...
Precisava fugir dali...
Por que não conseguia me mover?
Eu precisava correr...
Eu precisava viver...
E a lama entrava, a água me encharcava...
Senti que arrancavam meu filho de mim
E o mundo fugia, escurecia...
Eu quis correr...
Eu queria viver...
Eu não quis morrer assim!


Jane Moreira


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